“Minha atuação se fundamenta na investigação dos conteúdos intrapsíquicos e na elaboração simbólica das experiências subjetivas.”

Essa frase pode fazer sentido em uma conversa entre profissionais. Mas imagine alguém que está procurando terapia pela primeira vez, lendo a apresentação e pensando: “Tá, mas o que isso significa? Como vai ser conversar com você?”

É essa distância que vale a pena diminuir.

Para apresentar sua abordagem terapêutica, explique o que orienta seu trabalho, como isso aparece nos atendimentos e o que a pessoa pode esperar do processo. O nome da abordagem pode estar ali, mas não precisa carregar sozinho toda a explicação.

Sua formação merece ser apresentada com seriedade. E seriedade não precisa vir acompanhada de palavras difíceis.

O que é uma abordagem terapêutica?

A abordagem terapêutica é o referencial que orienta a maneira como o profissional compreende as experiências humanas e conduz seu trabalho. Diferentes abordagens dão ênfase a aspectos como pensamentos, comportamentos, relações, experiências passadas e formas de perceber a si mesmo. A British Association for Counselling and Psychotherapy, associação profissional britânica, apresenta essas diferenças em seu guia sobre tipos de terapia.

Na apresentação profissional, a proposta não precisa ser explicar toda a teoria. Experimente responder a uma pergunta mais concreta:

“O que essa abordagem significa para quem vai ser atendido por mim?”

Em vez de escrever apenas “atendimento de orientação psicanalítica”, por exemplo, acrescente uma explicação sobre como você trabalha. O termo técnico identifica o referencial. A explicação ajuda a pessoa a entender sua proposta.

Por que usar linguagem simples ao falar sobre terapia?

Segundo os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, o CDC, a linguagem simples facilita a compreensão e o uso de informações em saúde. Entre suas recomendações estão colocar a mensagem principal primeiro, escolher palavras conhecidas pelo público e organizar o conteúdo em partes claras.

Isso não significa infantilizar a comunicação ou tratar o leitor como alguém incapaz de compreender assuntos complexos. A ideia é não exigir que ele conheça seu vocabulário profissional antes de entender o que você oferece.

O Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos, o NIMH, recomenda que quem procura psicoterapia pergunte sobre a formação do profissional, a abordagem utilizada, os objetivos do trabalho e a maneira de acompanhar o progresso. Essas são boas perguntas para orientar sua apresentação.

Antes de explicar um conceito em profundidade, procure esclarecer: o que você faz, como trabalha e quais são os limites da sua atuação.

Como apresentar sua abordagem terapêutica na prática

Comece pelo atendimento, não pelo currículo inteiro

Em vez de abrir com uma sequência de cursos, autores e conceitos, experimente apresentar primeiro seu trabalho.

Um exemplo de estrutura seria:

“Atendo pessoas adultas que buscam compreender melhor suas emoções, seus relacionamentos e os desafios que estão vivendo. Meu trabalho é orientado pela [nome da abordagem].”

Depois, explique o que isso significa nas sessões e apresente sua formação.

Isso não é uma recomendação para esconder suas qualificações. É uma proposta de organização: primeiro, ajude a pessoa a entender o atendimento; depois, mostre a formação que sustenta sua atuação.

Preencha essa apresentação apenas com públicos e demandas que correspondam à sua capacitação e à sua prática.

Explique o que acontece nas sessões

Uma forma de revisar seu texto é perguntar: “Depois de ler isso, alguém consegue imaginar minimamente como funciona o atendimento?”

Quando corresponder ao seu trabalho, você pode explicar se costuma fazer perguntas, propor atividades, construir objetivos em conjunto ou conversar sobre situações do cotidiano.

Por exemplo:

“Nas sessões, conversamos sobre o que está acontecendo na sua vida e sobre como você tem se sentido. Ao longo desse processo, faço perguntas para ajudar a observar experiências e dificuldades que você queira compreender melhor.”

Perceba que a frase descreve uma forma de trabalhar, não um resultado garantido.

Evite apresentar como característica de toda uma abordagem algo que é uma escolha da sua prática. “No meu atendimento, costumo…” pode ser mais preciso do que “Nessa abordagem, todo profissional faz…”.

Troque expressões genéricas por descrições concretas

“Acolhimento”, “autoconhecimento” e “escuta” podem fazer parte da apresentação. Mas experimente mostrar o que essas palavras significam no seu trabalho.

Em vez de escrever somente:

“Ofereço um atendimento acolhedor e humanizado.”

Você pode detalhar:

“Você pode fazer perguntas sobre o atendimento, dizer quando alguma proposta não fizer sentido e conversar comigo sobre o que precisa para participar das sessões.”

Esse é um exemplo de redação, não uma frase para copiar independentemente da prática. A apresentação precisa corresponder ao que você efetivamente oferece.

A pergunta que ajuda na revisão é: “Estou descrevendo meu trabalho ou apenas usando palavras bonitas para falar dele?”

Revise pensando em quem não estudou o assunto

Depois de escrever, peça a alguém de fora da área para ler sua apresentação e contar, com as próprias palavras, o que entendeu.

Você pode perguntar:

“Pelo que você leu, como imagina que seja uma sessão comigo?”

Use a resposta como um teste editorial. Observe quais trechos ficaram claros e quais exigiram uma explicação adicional.

Revise também siglas sem explicação, frases longas e palavras técnicas que não sejam necessárias naquele primeiro contato. Essa atenção ao público, ao vocabulário e à organização acompanha as recomendações de linguagem simples do CDC

Exemplos de como explicar diferentes abordagens terapêuticas

Os textos abaixo são modelos de apresentação, não definições completas nem descrições de todos os profissionais de cada abordagem. Adapte-os à sua formação, ao serviço oferecido e ao seu modo de trabalhar.

Terapia cognitivo-comportamental: conecte a explicação ao cotidiano

“Trabalho com a terapia cognitivo-comportamental, também chamada de TCC. Nas sessões, observamos como pensamentos, emoções e comportamentos se relacionam nas situações que você vive. A partir disso, buscamos compreender dificuldades e desenvolver maneiras de lidar com elas.”

A explicação se aproxima da descrição do NIMH sobre identificar pensamentos automáticos, examinar como eles se relacionam com emoções e comportamentos e trabalhar padrões que estejam causando dificuldades. Não é necessário resumir a abordagem a “pensar positivo”.

Psicologia analítica: apresente a proposta antes dos conceitos

“Meu trabalho é orientado pela psicologia analítica, também conhecida como junguiana. Buscamos compreender sua história, seus conflitos e aspectos de você que talvez ainda sejam difíceis de reconhecer. Sonhos e imagens também podem fazer parte das conversas, considerando os sentidos que têm na sua experiência.”

A Associação Internacional de Psicologia Analítica destaca a exploração de experiências conscientes e inconscientes, o trabalho simbólico e a ampliação da compreensão da própria vida. Essa proposta pode ser apresentada sem exigir que a pessoa conheça previamente termos como “arquétipo” e “individuação”.

Orientação psicanalítica: explique o espaço de fala

“No atendimento de orientação psicanalítica, você pode falar sobre o que estiver pensando ou sentindo, sem precisar organizar tudo antes. Ao longo das conversas, buscamos compreender como sua história, seus desejos e conflitos aparecem na forma como você vive e se relaciona hoje.”

O exemplo traduz aspectos apresentados pela BACP sobre a fala, os processos inconscientes e a influência de experiências anteriores na vida atual.

Abordagem centrada na pessoa: mostre como você participa do processo

“Meu trabalho é orientado pela abordagem centrada na pessoa. Busco compreender sua experiência a partir de como você a vive, em uma relação de respeito e escuta. O objetivo é apoiar a exploração dos seus sentimentos e das suas escolhas, sem decidir por você.”

A formulação se apoia na descrição da BACP sobre empatia, aceitação e respeito à capacidade de desenvolvimento da pessoa.

Arteterapia: explique o uso dos recursos artísticos

O mesmo cuidado vale para apresentar a arteterapia, sem reduzi-la a uma atividade de desenho:

“Na arteterapia, podemos utilizar desenho, pintura, colagem e outros recursos artísticos para explorar experiências e sentimentos. Você não precisa saber desenhar. O foco não é produzir uma obra bonita, mas trabalhar com o processo de criação e com o que surge a partir dele.”

A American Art Therapy Association explica que a arteterapia envolve o fazer artístico em uma relação terapêutica e não exige habilidade artística prévia de quem participa. A apresentação também deve deixar clara a formação de quem oferece o atendimento.

Como falar da sua abordagem sem prometer resultados

Há uma diferença importante entre explicar uma proposta e garantir o que acontecerá com a pessoa.

Compare estas duas frases:

“Minha abordagem vai eliminar sua ansiedade.”

“No atendimento, podemos trabalhar as situações em que a ansiedade aparece e construir estratégias para lidar com as dificuldades identificadas.”

A segunda descreve uma possibilidade de trabalho. A primeira promete um resultado.

Para psicólogas e psicólogos, o artigo 20 do Código de Ética Profissional estabelece limites específicos para a divulgação: exige identificação profissional, permite mencionar apenas qualificações que a pessoa possui e proíbe previsões taxativas de resultados, divulgação sensacionalista e autopromoção em detrimento de outros profissionais. O Conselho Regional de Psicologia do Rio Grande do Sul detalha essas orientações em seu material sobre publicidade profissional.

Por isso, não apresente sua abordagem como “a única que funciona” ou tente valorizá-la diminuindo as demais.

Caso sua atuação pertença a outra categoria, confira as regras aplicáveis à sua profissão. Os exemplos deste artigo são sugestões de comunicação e não ampliam as atividades que sua formação permite oferecer.

Modelo de apresentação profissional para adaptar

Você pode começar com esta estrutura:

“Sou [nome], [profissão e qualificação efetivamente possuída]. Atendo [público] em questões relacionadas a [demandas compatíveis com sua atuação].

Meu trabalho é orientado pela [abordagem]. Na prática, isso significa que [explique o foco do trabalho em palavras simples].

Durante os encontros, [descreva como você costuma conduzir o atendimento]. Os atendimentos acontecem [modalidade e informações relevantes].

Para entender melhor como trabalho, entre em contato e tire suas dúvidas sobre o atendimento.”

Complete os campos com informações concretas. Evite transformar o modelo em uma lista extensa de todas as demandas possíveis.

No caso de divulgação de serviços de Psicologia, inclua o nome completo, a identificação do CRP e o número de registro, conforme as orientações profissionais.

Perguntas frequentes sobre apresentação de abordagens terapêuticas

Preciso mencionar o nome da minha abordagem?

É recomendável informar o referencial que orienta seu trabalho e explicar o que ele significa no atendimento. O NIMH inclui a abordagem e a justificativa para seu uso entre os assuntos que a pessoa pode discutir com um profissional antes de iniciar a psicoterapia.

Posso usar termos técnicos na apresentação?

Pode, mas explique os que forem importantes para entender sua proposta. A recomendação de linguagem simples não é retirar toda palavra especializada: é escolher o vocabulário considerando quem vai ler e evitar complicações desnecessárias.

Como apresentar minha abordagem em uma bio curta?

Priorize sua identificação profissional, o público atendido e uma explicação breve do trabalho. Por exemplo:

“[Nome e identificação profissional] | Atendimento a adultos | Abordagem [nome] | Saiba como funcionam as sessões abaixo.”

Use a página de apresentação para desenvolver a explicação. Não tente colocar toda a sua trajetória em uma única frase.

Como mostrar meu diferencial sem dizer que sou melhor?

Descreva características verificáveis do seu atendimento: sua formação, sua experiência, o público com quem trabalha e como conduz as sessões. Deixe que essas informações apresentem seu trabalho, sem comparações depreciativas ou promessas.

Sua apresentação não precisa parecer uma aula

Antes de publicar, volte à pergunta inicial:

“Quem nunca estudou terapia consegue entender o que estou oferecendo?”

Não se trata de esconder a complexidade do seu trabalho. Trata-se de encontrar palavras que permitam uma conversa.

No 100 neura, a gente acredita em uma saúde mental que faça sentido para quem procura cuidado. E essa conversa pode começar antes da primeira sessão: na forma como você se apresenta, explica seu trabalho e abre espaço para dúvidas.

Você não precisa mostrar tudo o que sabe em uma apresentação. Precisa ajudar alguém a entender como você trabalha.

Fontes consultadas

CDC — Centers for Disease Control and Prevention. Plain Language Materials & Resources. Recomendações de linguagem simples para informações em saúde. CDC

NIMH — National Institute of Mental Health. Psychotherapies. Informações sobre psicoterapia e perguntas para conhecer a proposta de um profissional. Instituto Nacional de Saúde Mental

BACP — British Association for Counselling and Psychotherapy. Types of counselling and psychotherapy. Apresentação de diferentes abordagens terapêuticas. ABAP Psicoterapia

IAAP — International Association of Analytical Psychology. George Hogenson. Analytical Psychology. Apresentação da psicologia analítica e de seus fundamentos. IAAP

AATA — American Art Therapy Association. What is Art Therapy? Explicação sobre arteterapia, processo criativo e participação nos atendimentos. American Art Therapy Association

CRPRS — Conselho Regional de Psicologia do Rio Grande do Sul. A divulgação profissional e as redes sociais. Orientações sobre o artigo 20 do Código de Ética Profissional do Psicólogo.